Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
quinta-feira, novembro 10, 2005
terça-feira, novembro 08, 2005

Sou um ser que encaixa bem na definição daquilo a que vulgarmente se chama de sonhador.
Tem as suas vantagens. Sinto tudo com as entranhas, e sinto muito!
Que o amor seja eterno, enquanto dure, já dizia o Vinicios.
Mas as contapartidas são muitas também.
...mas isto é só porrada e mal viver?! * É o reverso da medalha para os que sonham: muita lambada na tromba!
Às tantas o estranho é não levar porrada!
Um gajo habitua-se!
*José Màrio Branco, FMI
A vida em dois filmes...
/
Dois filmes muito importantes (para mim). O bom e o mau da essência humana. Espelhos da nossa natureza, da de todos.
Como é e como devia ser, tudo!
segunda-feira, novembro 07, 2005
domingo, novembro 06, 2005
Há coisa de dois anos, dois anos e meio, o exmo. Ricardo Mariano passava o Japanese to English no Vidro Azul. Foi o meu primeiro contacto with Mr. Kozelek. Na altura pareceu-me a melhor coisa que alguma vez tinha ouvido.
Alguém dizia no outro dia que se, numa primeira audição, uma música causa arrepios isso deve ser interpretado como um bom sinal. Pois foi qualquer do género "arrepio" que me aconteceu com aquela música. E depois disso veio todo o encantamento (sim, eu sei que foi tardio, mas mais vale tarde...) com os Red House Painters.
Provavelmente, junto com o Summer Dress, uma das músicas mais bonitas com que os meus ouvidos tiveram o prazer de privar.
i went as far as losing sleep
i went as far as messing up my life
unloving still strike me different
a million miles away from home
and fifteen from a payphone
where we sat lonely on the sand
you're ten years older
we translate japanese to english
and english to japanese
it's not that simple
this dictionary never has a word
for the way i'm feeling
it's nothing plain for me
of a different god and moral
what if i laid my head down on your stomach
or put my mouth to your hand
i cannot translate
japanese to english
or english to japanese
what i had to say is unsaid
what i had to do is undone
and if it was done
i'm sure it would have killed our hour
where we sat lonely on the stand
above the water the awful gray
didn't sweep away
Japanese to English, Down Colorful Hill, RHP
[...]
spends her life inside, she thinks she isn't blessed ....
...easiest days of her life have been spent
wonders if she is loved, if she is missed
says a prayer as she's kissed by ocean mist
takes herself to the sand and dreams
Summer Dress, Ocean Beach, RHP
sexta-feira, novembro 04, 2005
quinta-feira, novembro 03, 2005
Ja disse, vezes sem conta, que um dos filmes da minha vida e o Três Irmãos , da Teresa Villaverde.
Um filme, que pela estetica, caracteriza bem um cinema português-tipo que se fez durante os anos 90.
Lembro-me do filme e assalta-me a memoria a voz de um irmão da Maria ( interpretada pela "de Medeiros"). Uma criança que, ao longo do filme e em voz off, vai sussurrando perguntas :
-" Oh Maria, o que e a morte?"
-" Oh Maria, o que e o amor?"
E a Maria nunca responde. Porque não tem tempo e, porque a essas perguntas talvez seja a propria vida que se vai encarregando de nos dar as respostas.
A Maria e uma figura fragil que carrega o peso do mundo as costas, tentando ela propria não desmoronar.
A Maria apaixona-se mas não tem vida para ser feliz.
A Maria morre e não responde as perguntas.
Tambem não sei responder aquelas perguntas.
Se calhar e suposto não terem resposta.
quarta-feira, novembro 02, 2005
...
O meu medico* receitou-me uma dose diaria de Bloc Party, ao acordar.
Eu tambem recomendo.
* Eu sei que faltam acentos no texto. Se quiserem falar com o teclado pode ser que o convençam a querer ter uma vida normal e voltar a ser o mesmo de antes!



