A propósito da explosão de infraestruturas culturais e da oferta de "cultura" que o nosso país tem vindo a assistir nos últimos tempos:
"Já a democratização do acesso aos bens culturais cedo se transformou em massificação (como, aliás, também sucedeu com a educação), e isto porque partia de um pressuposto errado: não basta que todos os cidadãos tenham as portas abertas e franquias gratuitas para usufruírem dos bens culturais com prazer e com justiça e, consequentemente, para se tornarem melhores, mais cultos, mais cidadãos. A recepção de uma obra de arte, qualquer que seja a sua origem (popular ou erudita), requer chaves de leitura, mecanismos de habituação e simpatias estéticas que são independentes das expectativas que cada um terá face ao que vê ou lê ou ouve e face aos possíveis níveis de leitura; na ausência disto, a massificação (e o seu aproveitamento político comercial) equivale à banalização da recepção da obra e do seu impacto naqueles que passaram a consumir indiferenciadamente e, em regra, os produtos "de mais baixa qualidade".
in "À Procura da Escala, cinco exercícios disciplinados sobre cultura contemporânea" António Pinto Ribeiro, Cotovia , 2009